Sunday, April 09, 2006

A última Tabacaria

“Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.”
Fernando Pessoa

Mora aqui em casa, além de mim e da senhora judia que me deu a luz, uma outra pessoa. Um velhinho aposentado de quase setenta anos, pacato e silencioso, que não se altera por quase nada no mundo – meu pai!
Na juventude ele foi um rapaz interessante, mas deixou toda sua personalidade ser diluída pelo convívio doméstico. Hoje em dia, o sentido da sua existência é dado pela rotina e pelo hábito.
Só a política e o futebol são capazes de tirar esse homem do sério e lhe provocar uma reação, digamos, mais espontânea. Mas, aparentemente, uma outra pulga parece lhe cutucar por detrás das orelhas. Depois de mais de seis meses da minha "desocupação", o meu ócio pode estar lhe tirando o sono.
Numa tarde de sábado, depois de horas frente ao computador, algo que se tornou comum no meu cotidiano recente, ele entra no meu quarto, posiciona-se ao lado da minha cadeira e dispara:

- O que a gente vai fazer?
- Hoje eu não vou fazer nada. O Zero me chamou pra sair, mas decidi ficar em casa.
- Tô falando de trabalho. Tava pensando, acho q a gente podia abrir uma tabacaria, no centro da cidade. Deve ser um bom negócio, tanto que a gente nunca vê tabacaria pra vender.
- Talvez a gente não veja porque elas não existem mais desde os anos 50.
- Ah...pode ser. Mas, ainda acho que é um bom negócio.

Por que um homem que nunca pôs um cigarro na boca resolve um dia abrir uma tabacaria? E por que eu seria o sócio ideal? Talvez as tabacarias não existam mais. Mas, com certeza, eu fui o último homem da História do Ocidente a receber essa proposta empresarial "fascinante".
Não é fácil.

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