Saturday, April 15, 2006

Coletivo

Há um tempo atrás eu vi uma mulher (importante no mundo das idéias) dizer que a classe operária não existe mais e que a burguesia alcançou seu ideal de ser uma classe social universal. O padrão de vida e cultura burgueses são os moldes para todos os estratos sociais. O mundo virou uma grande classe média.
Porém, é bom não esquecer que a gente ainda vive num mundo de castas e que nosso sistema se favorece da exploração das classes. Existem os que mandam e os que obedecem. A universalidade da burguesia não alcançou, e nem nunca alcançará, a igualdade no poder monetário dos indivíduos, a possibilidade de concentrar renda e guardar dinheiro. Ao invés disso, - falando de Brasil, que é o que me interessa - as pessoas continuam sendo exploradas, exploradíssimas e continuam abastecendo a fortuna dos poderosos. Porém, cada vez mais tenho a impressão de que os meio e os métodos, as armas que coíbem esse grupo a aceitar a exploração está cada vez menos presente. Me parece (pronome oblíquo não pode funcionar como sujeito, eu sei, já fui revisor, mas tô cagando) que o sistema escravocrata que moldou os padrões trabalhistas desse país está tão profundamente enraizado que as pessoas nem imaginam outra forma de existência.
Se todo povo tem o governo que merece, acho que ele tem também o trabalho que deseja.

Nesse momento eu podia citar Platão, outros caras, me estender longamente e demonstrar toda a minha prolixidade. Mas só estou dizendo tudo isso porque eu quero xingar um filho da puta de um cobrador de ônibus que acha que um coletivo lotado é culpa da incompetência dos passageiros em viver em sociedade e com quem eu tive que gritar para poder descer do ônibus. Você merece trabalhar muito, ganhar pouco e morrer cedo.

PS – Existe um outro filho da puta, muito pior e maquiavélico, que é quem tá causando tudo isso – o prefeito de São Paulo que reduziu absurdamente a frota de ônibus e mostra pra quem ele realmente governa.

Wednesday, April 12, 2006

São Paulo


Para aqueles que não me conhecem, eu quero dizer: eu sou filho legítimo da cidade de São Paulo e dela herdei mau-humor e impaciência. Eu herdei outras coisas também, mas talvez essas duas características sejam as mais evidentes. Apesar de amar morar aqui - e olha que ultimamente são poucas as coisas às quais eu posso ligar a palavra amor - algumas das minhas intolerâncias mais fortes são provocadas pela metrópole.
Eu detesto barulho, trânsito na avenida Rebouças e aglomeração de pessoas que vão se amontoando pelas calçadas estreitas do centro em direções opostas, disputando espaço com camelôs e mesas de boteco. Odeio ônibus lotado, fila de cinema.
Mas, apesar de tudo, acho que só sairia daqui para um lugar maior.

Alguém pode inventar um caos organizado, por favor?

Sunday, April 09, 2006

A última Tabacaria

“Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.”
Fernando Pessoa

Mora aqui em casa, além de mim e da senhora judia que me deu a luz, uma outra pessoa. Um velhinho aposentado de quase setenta anos, pacato e silencioso, que não se altera por quase nada no mundo – meu pai!
Na juventude ele foi um rapaz interessante, mas deixou toda sua personalidade ser diluída pelo convívio doméstico. Hoje em dia, o sentido da sua existência é dado pela rotina e pelo hábito.
Só a política e o futebol são capazes de tirar esse homem do sério e lhe provocar uma reação, digamos, mais espontânea. Mas, aparentemente, uma outra pulga parece lhe cutucar por detrás das orelhas. Depois de mais de seis meses da minha "desocupação", o meu ócio pode estar lhe tirando o sono.
Numa tarde de sábado, depois de horas frente ao computador, algo que se tornou comum no meu cotidiano recente, ele entra no meu quarto, posiciona-se ao lado da minha cadeira e dispara:

- O que a gente vai fazer?
- Hoje eu não vou fazer nada. O Zero me chamou pra sair, mas decidi ficar em casa.
- Tô falando de trabalho. Tava pensando, acho q a gente podia abrir uma tabacaria, no centro da cidade. Deve ser um bom negócio, tanto que a gente nunca vê tabacaria pra vender.
- Talvez a gente não veja porque elas não existem mais desde os anos 50.
- Ah...pode ser. Mas, ainda acho que é um bom negócio.

Por que um homem que nunca pôs um cigarro na boca resolve um dia abrir uma tabacaria? E por que eu seria o sócio ideal? Talvez as tabacarias não existam mais. Mas, com certeza, eu fui o último homem da História do Ocidente a receber essa proposta empresarial "fascinante".
Não é fácil.

Thursday, February 09, 2006

O Início do Homem Cansado

O meu último emprego eu perdi há 6 meses. Perdi não, desisti. Cansei. Cansei de acordar cedo, antes do sol, cansei de tomar metrô lotado, ônibus de pé, café requentado, computador capenga e, acima de tudo, um chefe imbecil.
Aos vinte anos eu entrei na universidade e guardava o sonho secreto de me tornar um bom escritor. Cinco anos depois eu trabalhava como revisor de texto de uma pequena revista de entretenimento (leia-se, fofoca!). Um começo, uma possibilidade de crescer, quem sabe uma carreira e um futuro promissor. Que nada!
Três anos se passaram e eu me sentava na mesma mesa todas as manhãs, fazia a mesma coisa todos os dias, ganhava o mesmo salário todo mês e era acompanhado por um pc que envelhecia a cada minuto. Foram muitas Carlas, Sheilas, Giseles e outras tantas que passaram pela minha supervisão durante todo esse tempo.
Mas nada disso era tão difícil de agüentar quanto a presença intragável de um editor absolutamente retardado. Sério. O cara era analfabeto. A-nal-fa-be-to. Talvez nem conseguir separar as sílabas assim ele conseguisse. Como a revista e a verba eram pequenas, era ele quem escrevia grande parte dos textos e estes só chegavam dois minutos antes do fechamento – ininteligíveis! – e cabia a mim desvendar o mistério daquelas palavras e dar forma pra tudo aquilo. Frases que acabavam no meio, total falta de nexo e inexistência de pontuação. Um lixo.
Porém, tudo foi piorando com o passar do tempo e meu editor começou a perceber que por mais de-qualquer-jeito que ele escrevesse, os textos chegavam ao produto final com uma cara boa. Pior. Acho que ele começou a esquecer que aquelas linhas não tinham sido escritas por ele e passou a acreditar num talento natural seu de escrever inspirado, deixando pra mim a tarefa de alterar uma ou outra vírgula.

Um dia eu acordei, liguei pra dizer que não ia mais trabalhar e voltei a dormir.

6 meses depois acho que ainda não pus o meu sono em dia. zzzzzzzz!!!

Wednesday, February 08, 2006

A Mãe de um Homem Cansado

Talvez a característica judaica mais ortodoxa que eu compartilhe com o resto da comunidade seja a senhora que reside no quarto ao lado, a minha mãe, o estereótipo da mãe judia. Uma mulher de mais de 60, casada há mais de 40, com filhos acima de 30 (eu sou a única exceção, por enquanto) e que cria um drama por dia, na melhor das hipóteses.
Mãe dedicada e esposa exemplar, é ela quem lava e passa minhas meias, cozinha meu feijão e vasculha toda a minha vida particular em busca de algo comprometedor. Drogas, armas, dinheiro ilícito, dívidas de jogo, envolvimento com prostituição ou narcotráfico. Tudo em vão. Nem sequer um baseadinho. Nem camisinhas ela tem encontrado mais. Acho que no fundo, de uma maneira doentia e transtornada, ela espera descobrir uma vida secreta e bem mais excitante do que aquela que eu levo no momento.

Ela ainda não se desesperou, mas temo que a tormenta se avizinhe.

Tuesday, February 07, 2006

First Things First

Ok, ok. Vamos começar pelo início. Eu me apresento, digo quem sou, você gosta do que eu escrevo ou não, se identifica ou não e continua lendo o meu blog. Ou não.
Como eu tenho administrado as minhas frustrações há bastante tempo e sei que o mundo virtual - na verdade, o mundo burguês em geral - se baseia na existência do sujeito isolado em busca da própria identidade, eu vou continuar a falar de mim.

Como tudo começou
Não sei se todo mundo sabe, mas nos anos 30 e 40 houve um certo desentendimento na Europa envolvendo judeus, alemães e um homem de bigodes. A minha família resolveu se mandar enquanto era tempo, achou que Nova York era um lugar muito frio e resolveu tentar a vida mais perto dos trópicos.

Tá bom, é tudo mentira! Eu não vou romancear a minha vida só pra ganhar atenção e piedade.

A minha família é realmente judia, mas está no Brasil há muito mais de um século e o motivo deles terem chegado por aqui me escapa. Na verdade, todo o significado de ser um judeu me escapa, este é um título que eu e meus irmãos ganhamos quando nascemos e que ostentamos com um certo orgulho vazio, talvez por ser nosso único diferencial da média da população urbana brasileira. Nós não fomos circuncidados, não tivemos um barmitzva, não fomos pra escola hebraica e não freqüentamos a sinagoga. Já dá pra prever, portanto, que eu não moro em Higienópolis, não estou cercado de símbolos que não significam quase nada pro resto da população e não sofro dos mesmos dramas que Woody Allen ou Jerry Seinfeld.
O lado bom de ser judeu foi, talvez, o fato de não ter sido criado como um católico, não ter feito primeira comunhão, não ter estudado em colégio de freiras e não ter passado a infância sendo obrigado a ir à igreja aos domingos. Quando eu era criança o Protestantismo também não estava, por assim dizer, tão em alta. O lado ruim foi que eu cresci e me tornei um adulto cético - não que me incomode, mas às vezes sinto falta de uma certa esperança.

Mas eu já falei muito de mim. Agora fala um pouco de você.

Monday, February 06, 2006

Causa, Motivo, Razão e Circunstância

O que fazer quando você beira os trinta anos, não tem emprego ou compromisso firme, mora com seus pais, têm milhões de idéias mirabolantes que podem salvar o mundo da fome, da peste e da ignorância, mas misteriosamente sua vida continua na mais ampla e absoluta mediocridade? O que pensar quando a sua própria mãe começa a sentir pena de você e te achar um fracassado? Qual o momento de se desesperar e gritar por socorro?
Resposta para tudo isso: não sei.
Tudo o que eu conheço é fruto do anti-clímax da vida burguesa de um homem que a sociedade não considera muito brilhante e que resolveu contar tudo em um blog. Assim fácil, assim chato.
Relaxe e desfrute.

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alô, alô... som, som ... testando... som